Um Plano de Natal

Um Plano de Natal é um projeto para desenvolver uma obra audiovisual interativa (Lei nº 9.609/1998) que busca explorar as possibilidades da interação dos tablets nos processos de construção da língua escrita.

A obra foi originalmente desenvolvida para tablets Android e não está mais acessível em sua forma original na Play Store. As sucessivas exigências de atualização da plataforma tornaram inviável manter em operação um programa concebido para o Android de 2012, e a obra foi retirada da loja no ano passado.

O que se apresenta nesse site é uma migração parcial da versão para tablets ao ambiente web, realizada com a finalidade de preservar a memória do projeto e manter o acesso à obra para fins de pesquisa e documentação. A migração não é uma reedição: a interação foi originalmente concebida para o toque direto sobre a tela de um tablet, e algumas escolhas de projeto — a manipulação dos objetos, a relação entre o corpo da criança e a superfície de leitura, a ausência de dispositivo intermediário entre a mão e a página — só se realizavam plenamente naquele suporte. Ao ler o que segue, convém ter presente que os recursos descritos foram formulados para aquela condição de uso.

A obra na íntegra, no navegador. O texto abaixo documenta o projeto e pode ser lido depois.

Circulação

A obra esteve publicamente disponível na Play Store entre 2012 e 2019, e foi instalada em mais de 10 mil dispositivos ao longo desse período. Tratou-se, portanto, de um artefato que circulou fora das condições controladas de um estudo: sete anos de distribuição aberta, em dispositivos e contextos de uso que a pesquisa não selecionou nem acompanhou. Esse alcance não constitui, por si, evidência de efeito pedagógico — não houve coleta sistemática de dados de uso —, mas registra que as hipóteses de interação aqui descritas foram submetidas ao uso real, e por tempo suficiente para que a própria obsolescência da plataforma se tornasse parte da história do projeto.

Contexto de concepção

A obra foi concebida em 2011 e desenvolvida ao longo de 2012, período em que duas condições se sobrepuseram. A primeira, tecnológica: a popularização dos tablets instaurava uma superfície de leitura acessível à primeira infância, operável por toque direto, sem a mediação do teclado e do mouse — isto é, disponível a crianças que ainda não leem. A segunda condição era de política pública e de pesquisa: os programas de computação um-para-um, entre eles o Um Computador por Aluno, haviam tornado mais presente o artefato digital em uso continuado dentro da sala de aula de alfabetização, tornando importante a investigação sobre as possibilidades do uso desse recurso.

A direção da obra situou-se nessa segunda condição. A pesquisa de mestrado de Silvia de Oliveira Kist (UFRGS, 2008) havia investigado a inserção de laptops educacionais em contexto escolar; o trabalho de campo junto ao One Laptop per Child em Ruanda, apresentado no Constructionism 2010 (Kist; Bittencourt; Cavallo), e a análise das implicações do modelo um-para-um para os processos de aprendizagem da língua escrita consolidaram uma constatação que organizou esta obra: o artefato digital raramente falha por escassez de estímulo e frequentemente falha por indiferença — aceita o que a criança produz sem devolver nada que a obrigue a examinar a própria produção.

A pergunta

Formulada nesses termos, a questão de interesse da pesquisa educacional brasileira deixa de ser se a interatividade motiva e passa a ser: o que, na resposta do artefato, participa da construção das hipóteses infantis sobre a língua escrita? A obra a recolocou no terreno da leitura, articulando o marco da psicogênese da língua escrita (Ferreiro; Teberosky) — para o qual a criança elabora hipóteses sucessivas sobre a relação entre a cadeia sonora e a notação — ao construcionismo da linhagem do LEC/UFRGS (Papert; Fagundes), para o qual o objeto digital só tem valor cognitivo quando se torna um objeto com o qual pensar.

O livro como artefato de pesquisa

Concebido como artefato de pesquisa, e não como produto editorial com camada interativa acrescentada, o livro tratava cada interação como hipótese a observar em uso. Nenhum recurso foi incluído por disponibilidade técnica: cada um respondia a uma hipótese explícita sobre a mediação entre a criança, o texto e a imagem, e era subordinado à narrativa em vez de competir com ela — decisão de projeto que respondia ao problema, já reconhecido em 2012, de livros interativos em que a interação dispersa a atenção que a leitura requer.

Os recursos e as hipóteses que os sustentavam

A narração sincronizada, que destacava cada palavra no instante em que era pronunciada, tornava observável a correspondência entre a cadeia oral e a cadeia gráfica. A hipótese era que a simultaneidade — e não a explicação — é o que permite à criança localizar, na linha escrita, onde está aquilo que ela ouve.

O toque sobre a palavra, que a isolava e a repetia, incidia sobre a segmentação lexical: recortava da fala contínua uma unidade escrita com fronteiras estáveis, uma das conquistas mais custosas do processo inicial de apropriação da escrita. O gesto era, no tablet, o mesmo gesto de apontar com o dedo — coincidência entre a ação de indicar e a ação de acionar que a migração para o navegador só reproduz de modo aproximado.

Os dois modos de leitura — mediado e autônomo — inscreviam no próprio artefato a transferência progressiva do controle da leitura, da escuta acompanhada à leitura por conta própria, de modo que a passagem fosse decisão da criança e não etapa imposta pelo programa.

Os objetos manipuláveis sustentavam a permanência na tarefa, mantendo o retorno ao texto como movimento voluntário: a manipulação ocorria na página, não em substituição a ela. Concebidos para o arrasto com a mão sobre a superfície, foram o recurso mais afetado pela mudança de suporte.

Continuidade

A obra operou sobre o polo da leitura. A investigação sobre o polo da escrita foi retomada na tese de doutorado da diretora (UFRGS, 2017), que identificou três funções pedagógicas distintas dos artefatos digitais no desenvolvimento da escrita infantil — reconhecer a hipótese manifestada, tornar observáveis suas contradições e apoiar a reconstrução —, funções que, naquele estudo, só a intervenção humana desempenhou. Um Plano de Natal é, retrospectivamente, o primeiro ensaio dessa mesma questão: até que ponto uma resposta pré-programada pode participar da construção da língua escrita.


Direção
Drª Silvia de Oliveira Kist
Textos
Drª Patrícia Behling Schäfer · Drª Silvia de Oliveira Kist
Ilustrações
Drª Daniela Szabluk
Narração
Profª Juliana Dalmann
Desenvolvimento
Me. Juliano Bittencourt
Robson Mendonça

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